sábado, junho 07, 2008


Texto de Danielle Miterrand, esposa do ex-presidente François Miterrand, ao povo francês, após ter recebido críticas impiedosas por ter permitido a presença da amante do marido e de sua filha, Mazarine, na cerimônia fúnebre.


"Antes de mais nada devo deixar claro que não é um pedido de
desculpas. Muito menos um enunciado de justificativas vãs, comum aos
covardes ou àqueles que vivem preocupados em excesso com a opinião dos
outros. Aos 71 anos, vivendo a hora do balanço de uma existência que
é um sulco bem traçado e profundo, já não mais preciso, e nem devo,
correr atrás de possíveis enganos.

Vivo o momento em que as sombras já esclarecem e que as ausências são
lindas expressões de perenidade e criação.
Sombras e ausências podem ser tudo, ao passo que luzes e presenças
confundem os mais precipitados, os maisjovens.

Vivi com François 51 anos; estive com ele em muito desse tempo e me
coloquei sempre. Há mulheres que não se colocam, embora estejam; que
não se situam, embora componham o cenário da situação presumível.
Uma vida de altos e baixos. Na época da Resistência nunca sabíamos
onde iríamos passar a noite - se na cama, na prisão, nos bosques ou
estendidos por toda a eternidade.

Quando se vive assim em comum, cria-se uma solda e a consciência de
que é preciso viver depressa. Concentrar talvez seja a palavra. Por
isso tentei entendê-lo, relacionar-me com sua complexidade, com as
variações de sua pessoa e não de seu caráter.

Quem entende, ou pelo menos luta para compreender as variações do
outro, o ama realmente. E nunca poderá dizer que foi enganada ou que
jamais enganou. Não nos enganamos, nos confundimos quando nos
perdemos da identidade
vital do parceiro, familiar ou irmão. Ou jamais os conhecemos, o eu
também, não é um engano. Quem não conhece, não tem enganos. Nas
variações do outro, não cabe o apaziguador que destrói tudo antes do
tempo em forma de tranqüilidade. Uma relação a dois não deve ser
apaziguada, mas vibrante, apaixonada, e não, enfastiada. Nessa
complexidade vi que meu marido era tão meu amante quanto da política.
Vi, também, que como um homem sensível poderia se enamorar, se
encantar com outras pessoas, sem deixar de me amar.

Achar que somos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia,
conformismo. É preciso admitir docemente que um ser humano é capaz de
amar apaixonadamente alguém e depois, com o passar dos anos, amar de
forma diferente. Não somos o centro amorável do mundo do outro. É
preciso aceitar, também, outros amores que passam a fazer parte desse
amor como mais uma gota d'água que se incorpora ao nosso lago.

Simone de Beauvoir dizia bem, que temos amores necessários e amores
contingentes ao longo da vida.

Aceitei a filha de meu marido e hoje recebo mensagens do mundo inteiro
de filhos angustiados que me dizem:
"Obrigado por ter aberto um caminho. Meu pai vai morrer, mas eu não
poderia ir ao enterro porque a mulher dele não aceitava".

É preciso viver sem mesquinhez, sem um sentido pequeno, lamacento,
comum aos moralistas, aos caluniadores e aos paranóicos azedos que
teimam em sujar tudo. Espero que as pessoas sejam generosas e amplas
para compreender e amar seus parceiros em suas dúvidas, fragilidades,
divisões e pequenas paixões. Isso é amar por inteiro e ter confiança
em si mesmo" .

"Deus não prometeu Dias sem Dor; Risos sem Sofrimentos; Sol sem Chuva.
Ele prometeu Força para o Dia; Conforto para as Lágrimas e Luz para
o Caminho ** ..."*

Um comentário:

Renan disse...

Oh cabeca onde vc conseguiu esse texto? Mto bom hein!
Quero so ver ;)